quinta-feira, 16 de junho de 2016

Contos de Fada: um breve panorama



Os contos de fada possuem uma origem incerta. São parte da tradição narrativa oral de diversas culturas, reconhecidos em textos antigos das sociedades gregas e egípcias, mas encontrados em especial na cultura céltica, cujas versões serviram de base para grande parte das histórias que conhecemos hoje como contos de fada clássicos.
São fortemente caracterizados pela presença de magia e encantamento, com criaturas folclóricas, reinos, cavaleiros, animais falantes, fadas, bruxas, entre outros, e marcados pela presença de um herói que possui um objetivo a conquistar e uma série de obstáculos em seu caminho. O encantamento não se restringe apenas à fantasia, mas também ao modo como a narrativa cria uma versão aumentada da realidade, um fator que se torna cada vez mais importante do que os elementos fantasiosos das histórias clássicas, principalmente nas histórias mais contemporâneas.
As versões originais sofreram diversos processos de adaptação ao longo do tempo. Nelas, já era possível perceber que muitos contos de fadas possuíam a função de transmitir valores morais e éticos e alertar sobre problemas da vida real, trabalhando conceitos de bem e mal, heróis e vilões, empatia e estranhamento. Era frequente também a presença de violência, sexualidade, trabalho, entre outros temas, que, no geral, ainda percebemos na base das histórias contadas atualmente, pois não havia comprometimento com a infância, e sim com o papel comum para adultos e crianças presente nas sociedades da época. Há, então, a indicação de que os contos contam um pouco da história dos povos que os cultivaram, os utilizando como forma de passar adiante momentos críticos e as lições que trouxeram para a comunidade, além de definir papéis sociais e crenças.  
As maiores alterações sofridas pelos contos de fadas ocorreram, principalmente, pela criação do conceito de infância e o entendimento de que deve existir uma divisão social mais clara sobre a distribuição de funções e de conhecimento de mundo para cada faixa etária, e, assim, que crianças devem ser poupadas de alguns assuntos que não compreenderiam com tanta facilidade ou que seriam considerados imorais.  Alguns dos responsáveis mais notáveis por essas adaptações foram os Irmãos Grimm, H.C Andersen e Charles Perrault.
Os contos de fada também se tornaram uma parte importante da formação da criança no sentido psicológico. O pouco conhecimento de mundo de uma criança nem sempre permite que os problemas enfrentados no dia a dia sejam processados de forma consciente e racional,  o que gera ansiedades e dificuldade em comunicar os sentimentos que as causam. A linguagem do imaginário fantástico dos contos de fada dialoga com a visão que a criança possui do mundo ao seu redor, que também não é lógico aos seus olhos. A criança consegue se colocar no papel dos personagens e heróis, e visualizar seus próprios problemas nos que são trabalhados nos contos, dividindo as aflições e os percebendo de forma menos solitária.  Isso ocorre, geralmente, de forma não consciente, a criança percebe apenas o bem estar relacionado às histórias e as conexões que realiza entre o mundo imaginário e o real.
A presença de grandes problemas e vilões terríveis ajudam a criança a ter outro ponto de vista sobre os próprios problemas e vilões, que são muitas vezes sentimentos confusos nas relações sociais e familiares. Uma história extraordinária acaba por demonstrar o quanto a realidade pode ser amena.

Bibliografia:
BETTELHEIM, B. Psicanálise dos contos de fadas. 9. ed. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
SCHNEIDER, Raquel Elisabete Finger; TOROSSIAN, Sandra Djambolakdijan. Contos de fadas: de sua origem à clínica contemporânea. In: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1677-11682009000200009&script=sci_arttext>. Último acesso em: 16/06/2016.
SALES, Gutemberg Martins de. Literatura infantil e os contos de fadas na construção de valores e formação das crianças. In: <http://www.artigonal.com/educacao-infantil-artigos/literatura-infantil-e-os-contos-de-fadas-na-construcao-de-valores-e-formacao-das-criancas-4823064.html>. Último acesso em: 16/06/2016.


Swift: o flagrante individual de um momento social

À compreensão da escrita de Swift é imprescindível o conhecimento da conjuntura social e política na qual foi desenvolvida. Para tanto, faz-se necessário um panorama histórico.
No reinado de Henrique VIII (1509-1547), em meio à luta entre a soberania dos reis e o poderio da Igreja, criou-se na Inglaterra uma Igreja Nacional. A Igreja Anglicana, como veio a ser chamada, se caracterizou por ser estreitamente vinculada ao Estado, por estar fora da jurisdição papal e por sua subordinação à autoridade do Rei. Consolidou-se através de suas práticas e de sua liturgia durante o reinado de Isabel (1550-1603), tornando-se um grande instrumento político. Ainda assim, havia, naquela época, grande diversidade religiosa na Grã-Bretanha: na Inglaterra, encontravam-se calvinistas puritanos, católicos e anglicanos; na Escócia uma maioria de calvinistas presbiterianos; e na Irlanda, majoritariamente, católicos. Entretanto, devido ao interesse de se manter o equilíbrio da vida inglesa, houve uma tolerância do Estado durante o reinado de Isabel.
Após a morte da rainha inicia-se o reinado dos Stuarts com Jaime I (1603-1625) e Carlos I (1625-1649). Mesmo sendo Anglicano e não dando espaço aos católicos nos órgãos de representação, o reinado de Jaime I não se caracterizou por conflitos religiosos, e sim por uma indisposição com o Parlamento devido à criação de impostos para suprir os gastos que a Coroa tinha com guerras.
No reinado de Carlos I a indisposição que havia com o Parlamento evoluiu para um conflito: após quatro anos de sua posse (1629), valendo-se de sua autoridade política e religiosa, Carlos I instaurou uma monarquia absolutista. Com a economia do reino cada vez mais comprometida, ele tentou criar um novo imposto que foi vetado pelo Parlamento, e em 1642 estourou a guerra civil inglesa. Em 1645 a guerra termina com o triunfo do Parlamento que era liderado por Oliver Cromwell.
Em 1649 Carlos I é decapitado e proclama-se a República. Entretanto, sob o título de Lorde Protetor da Inglaterra, Oliver Cromwell tornou-se governante. Seu governo foi marcado pela imposição do puritanismo à Grã-Bretanha: fechou teatros, casas de jogos, bares, tavernas, bordéis e foi além- toda tolerância religiosa acabou. Cromwell realizou uma violenta perseguição aos católicos, sobretudo na Irlanda.
Em 1660 Cromwell morre, Carlos II volta da França e assume o trono. Depois de toda repressão puritana, houve, durante o reinado de Carlos II, um grande relaxamento moral e até certa libertinagem, e foi justamente nessa época que nasceram os dois grandes partidos políticos ingleses:
os Whigs, defensores do ideal puritano e da autoridade do Parlamento em face do rei; e os Tories, conservadores e fiéis aliados não só das prerrogativas monárquicas, como também do sistema episcopal da Igreja Anglicana (ANDRADE, A. de. Prefácio. In: Swift, J. Viagens de Gulliver (C. Teixeira, Trad.). Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. (339p.). )
Foi nesse ambiente de lutas religiosas e políticas que nasceu em Dublin (Irlanda) Jonathan Swift, um dos maiores nomes da literatura anglo-irlandesa, em 30 de novembro de 1667 - apenas sete anos após o término da guerra puritana na Inglaterra. Swift foi educado no Trinity College, onde recebeu uma educação extremamente conservadora, clássica e anglicana e após a conclusão de seus estudos, foi para Inglaterra ser secretário do Sr. William Temple, um escritor e diplomata aposentado.
Na política, com a morte de Carlos II, quem assumiu o trono foi seu tio James II, rei que tinha apoio dos Tories, mas que o perdeu quando tentou reinstituir a Igreja Católica e o Absolutismo. Com isso, em 1688 ocorre a Revolução Gloriosa, onde James é tirado do poder e Guilherme de Orange (marido da irmã de James II e rei da Holanda) assume. É nessa época, em que a nova ordem leva os Whigs ao poder, que Swift vai para Inglaterra com Temple.
Houve uma reação conservadora durante o reinado seguinte, da rainha Ana (1702-1714), onde os Tories assumiram o poder e Swift deu inicio a sua atuação política escrevendo sátiras em defesa dos conservadores.
 Em 1713, Swift recebeu a posição de Deão da Catedral de São Patrício, em Dublin, como recompensa por seus serviços políticos. Com a morte da rainha e o afastamento dos Tories do poder, Swift deixa Londres definitivamente e volta à Irlanda, onde dedicou-se à vida religiosa e à literatura.
Foi através da voz de suas sátiras e de seu tom crítico que, na Irlanda, acabou por tornar-se um herói nacional ao lutar para diminuir a opressão dos católicos pelo governo protestante.
Swift viveu numa época de antagonismos, transições e instabilidade; sua literatura traduz não só essas lutas, mas também sua violência e a desordem psicológica por ela causada. Suas sátiras estão repletas de críticas causadas pelo seu choque com a crueldade e o egoísmo humano.
Em 1720, carregado por todo esse ambiente, Swift começa a escrever o livro que viria a ser considerado o seu masterpiece: As Viagens de Gulliver, publicado em 1726.
Jonathan Swift faleceu em Dublin, no dia 19 de outubro de 1745. Foi sepultado na Catedral de São Patrício sob um epitáfio que ele mesmo escolheu: “Quando a selvagem indignação não mais pode lacerar o coração, parte, viajante, e imita, se puderes, o resoluto defensor da liberdade viril”.

Bibliografia

Jonathan Swift: His Life and His World - Leo Damrosch: May 14, 2014. Disponível  em: <https://www.youtube.com/watch?v=vfQ992lh7Cg>. Acesso em: 16 jun. 2016.
Swift, J. (1965) Viagens de Gulliver (C. Teixeira, Trad.). Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. (339p.).
The Research and Planning Department of the CCAA. A Brief View of British Literature. CCLS Publishing House. Brasil. 

As Viagens de Gulliver

Concepção, controvérsia, censura, traduções e adaptações

  Publicado em 1726, sob o titulo original de Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships, Viagens de Gulliver, título em português, é uma das principais obras de Jonathan Swift. De natureza satírica, os relatos das viagens do cirurgião Lemuel Gulliver são críticas à natureza humana, às formas de pensamento e à organização social e religiosa vigentes na Europa do século XVIII. O romance satírico de Swift é muitas vezes posto em comparação com Robinson Crusoe, de Daniel Defoe: enquanto o último, publicado sete anos antes, transparece a visão positiva e otimista de Defoe acerca da capacidade humana, Viagens de Gulliver é cético quanto à essência humana, pessimista, e discute, entre outros temas, se o homem é inerentemente corrupto ou se é corrompido ao longo da vida.
  Não se sabe ao certo quando começou ou quanto tempo levou na composição de Viagens, mas sabe-se que Jonathan Swift fez parte de um grupo de outros escritores chamado Scriblerus Club, que tinha como objetivo a sátira de gêneros literários populares da época; a Jonathan Swift coube o relato de viagens. À epoca de sua publicação, a obra — que é composta de quatro livros, cada um relatando uma viagem a um destino ou série de destinos — rapidamente se populariza, em grande parte pelo tom fabulesco das aventuras do cirurgião. Tanto é o sucesso de Viagens, que John Gay, colega de Swift no Scriblerus Club, escreve, no próprio ano de 1726, uma carta que diz o seguinte: "Do nível mais alto ao mais baixo ele é universalmente lido, do conselho do gabinete ao berçário. É consenso entre os políticos que o livro está isento de reflexões particulares, mas que a sátira das sociedades humanas em geral é por demais severa."¹ (SWIFT & FOX, 1995, p. 21).
  A crítica mordaz em Viagens de Gulliver e o posicionamento claramente contrário ao partido Whig — o episódio na corte de Lilliput, primeiro dos destinos de Gulliver, reflete e satiriza a disputa entre os dois principais partidos britânicos, Whig e Tory — fazem com que o editor que recebe o manuscrito anônimo de Swift, Benjamin Motte, corte e altere diversos trechos do original: partes da viagem a Lilliput e da rebelião de Lindalino são simplesmente removidas. Motte também acrescenta parágrafos em defesa da Rainha Anne. A popularidade instantânea das aventuras de Gulliver faz surgir diversas continuações, paródias e guias da obra, publicados no encalço de Viagens. São, porém, fortemente repudiados por Swift, que tem, em 1735, a chance de se posicionar acerca da censura de Motte e dos escritos que tomam carona no sucesso de sua obra.
  George Faulkner — editor irlandês — publica, em 1735, uma edição revista da obra de Swift. Faulkner teve acesso a uma das edições anotadas por Motte com algum conteúdo removido ainda preservado; o manuscrito original enviado por Swift havia sido destruído. A partir dessa edição, foi incluído no romance uma carta, primeiro dos elementos pré-textuais de Viagens, chamada O Editor ao Leitor, que garante que um tal Richard Sympson, primo de Lemuel Gulliver e editor da publicação, recebeu do próprio primo o manuscrito de suas viagens. Sympson reforça o caráter verdadeiro dos relatos de Gulliver, característica dos romance realistas de relato de viagens. O segundo elemento pré-textual é uma carta do próprio Gulliver a seu primo Sympson, também adicionada ao romance a partir da edição de 1735, condenando a censura da edição de Sympson — na verdade, a edição de Motte:
Mas não me lembro de lhe ter concedido o poder de consentir que qualquer coisa pudesse ser omitida, e muito menos que qualquer coisa pudesse ser insertada; por isso, quanto às inserções, aqui renuncio qualquer coisa desse tipo; particularmente um parágrafo sobre sua majestade Rainha Anne, da mais pia e gloriosa memória; apesar de reverenciá-la e estimá-la mais que qualquer um da espécie humana. (SWIFT, 2012, p. 51)
  A edição de 1735 passa a ser a edição de consulta para novas traduções, uma vez que seu texto é o mais próximo que há do integral. A edição de Motte, segundo o próprio Swift, deixa o livro irreconhecível; através da fala de Gulliver, a reprovação fica evidente: “Da mesma forma no relato da academia dos projetistas, e em diversas passagens de minha conversa com meu mestre Houyhnhnm, você ou omitiu algumas circunstâncias materiais, ou misturou-as ou mudou-as de tal modo, que dificilmente reconheço minha própria obra.” (SWIFT, 2012, p. 56). Junto aos primeiros cortes de conteúdo desde a primeira publicação, traduções e adaptações em todo o mundo acabam por “amenizar” o estilo ácido e por vezes agressivo das críticas de Swift.
  É claro, portanto, que Viagens nunca foi pensado por Swift como um livro para crianças. Mas há algo que, geração após geração, mantém Viagens de Gulliver como um clássico, sempre atual; relevante tanto para crianças (em suas diversas adaptações) como para adultos (com tudo o que a versão original tem a revelar). Nelly Novaes Coelho, em seu Panorama Histórico Da Literatura Infantil/Juvenil, reflete a respeito das traduções e adaptações de Viagens: “essa “indignação raivosa” que está latente (ou patente) na matéria alegórica que constitui Viagens de Gulliver acabou desaparecendo nas traduções e adaptações que começaram a correr mundo, transformadas em literatura para meninos e jovens.” (COELHO, 1991, p. 122). E, ainda:
Devido à inegável crueldade que transparece da linguagem satírica escolhida por Swift (e que, mais do que atacar a Inglaterra da época, denunciava as misérias morais da Humanidade), caberia perguntar como tal obra se transformou em Literatura Infanto-Juvenil e tem sido festejada por esse público jovem em todo o mundo. (COELHO, 1991, p. 123)
  O grande número de adaptações de Viagens e a popularidade junto ao público infantil, desde seus primeiros anos, se justificam no caso de se observar do que é composta a obra alegórica de Swift: se omitida a intenção crítica dominante e a crueza de sua linguagem, restam relatos de viagens fantásticas que não só dialogam com o universo de uma pequena criança “perdida” em um mundo de grandes adultos — similarmente a um Gulliver perdido entre os gigantes de Brobdingnag — como resgatam outros textos da tradição literária popular (são exemplos O Pequeno Polegar, de Perrault; ou a Ilíada, de Homero, com seus cavalos falantes — conforme aponta Nelly Novaes Coelho.), muito presentes no imaginário infantil.

Gulliver e as viagens

  Gulliver, apesar de não ter tido acesso a educação superior, lê muito e é habilidoso com línguas estrangeiras, o que garante que aprenda rapidamente todas as línguas dos lugares que visita, mesmo a dos Houyhnhnm:
Empreguei os meus ócios em ler os melhores autores antigos e modernos, levando sempre comigo certo número de livros, e, quando vinha à terra, não descurava de notar os usos e costumes dos povos, aprendendo, simultaneamente, a língua do país, o que se me tornava fácil, visto possuir boa memória. (SWIFT, 2012, p. 113)
  No quesito personagem, Viagens de Gulliver é um romance bastante moderno: a personagem é, no íntimo, completamente transformada. No princípio do romance, Gulliver — cujo nome vem de gullible, inglês para crédulo, ingênuo — é um homem otimista, movido pelo desejo comum do homem burguês de enriquecer e oferecer uma vida melhor à mulher e aos filhos. Até o desfecho da última viagem, vemos Gulliver se transformar em um misântropo recluso que enxerga todos os seres humanos como os humanoides irracionais yahoos do país dos Houyhnhnm. A natureza inicial de Gulliver é de acreditar no que vê e no que dizem a ele; para Luis André Nepomuceno, a inocência de Gulliver permite que ele denuncie involuntariamente os absurdos das viagens; Para ele, Gulliver:
Em geral, é incapaz de observações agudas e se envolve confusamente com os fatos, deixando claro que não é possuidor de qualquer espírito crítico ou aptidão para o discernimento, o que evidentemente torna o humor ainda mais refinado e o leitor ainda mais ágil. Em termos práticos, isso funciona mais ou menos assim: Gulliver narra os abusos, as atrocidades e calamidades de cada um dos reinos que visita, mas ao mesmo tempo, toma-os por fatos inteiramente normais, como se o absurdo fosse subitamente banal e compreensível. Não há momento no livro em que o narrador Gulliver pondera, junto do leitor, sobre os escândalos daquilo que vê. (NEPOMUCENO, 2005, p. 194)
  Ao longo da narrativa, depois de estar em tantos lugares e conhecer de perto a essência corrompida dos humanos, a descrença de Gulliver cresce a tal ponto que ele deseja não precisar voltar à Inglaterra. A relação entre os países que visita e o próprio Gulliver é sempre de oposição: Em (1) Lilliput, Gulliver é um gigante; a forma de governo é complexa e, na opinião dele, o governo liliputeano é pior que o governo inglês (embora esta viagem aponte para questões reais da própria Inglaterra): os liliputeanos são vistos por Gulliver como corruptos e inescrupulosos. Em (2) Brobdingnag, Gulliver é minúsculo. O governo e a constituição são simples (embora patriarcais e completamente alheios aos direitos humanos) e o rei de Brobdingnag os considera muito superiores aos modelos europeus.
  Na (3) ilha da Lapúcia, Gulliver se sente mais sábio que os homens que investem tempo e recursos em pesquisas e experimentos “científicos” que não colaboram para o progresso da sociedade ou de seu governo; este governo é, para Gulliver, pior que o inglês. A “piada” que os homens de Lapúcia representam para Gulliver é, para Nelly Novaes, reflexo dos valores vigentes da época: “Ainda no sentido da verdadeira cultura, Swift satiriza a esterilidade ou gratuidade de certo “saber” que não levava a nada de útil para o homem. E nisto está também o pragmatismo do pensamento burguês que se instalava no mundo.” (COELHO, 1991, p. 123).
  No (4) país dos cavalos falantes Houyhnhnm, Gulliver acaba visto apenas como um yahoo capaz de raciocínio e, apesar de desejar viver definitivamente neste país, jamais se equipara aos Houyhnhnm, muito mais sábios que a raça dos homens. Este governo é infinitamente superior ao inglês. Apesar da evidente superioridade dos equinos em relação aos humanos, esta viagem também é satírica; segundo Nepomuceno:
Diferentemente dos outros 3 livros, este parece estar ligado às antigas utopias renascentistas, de que Swift particularmente não gostava. O relato, no entanto, revela-se tão satírico quanto os outros, assim que se compreende que a utopia dos Houyhnhnms esconde uma sátira da sociedade prática e racionalista, sustentada pela ausência de vícios e paixões, mas ao mesmo tempo, pela ausência de tolerância, amor e afetividade. (NEPOMUCENO, 2005, p. 193)
  Não há, portanto, forma de governo ideal em Viagens de Gulliver: nem os corruptos liliputeanos, sempre em guerra com os vizinhos de Blefuscu, nem os simplistas de Brobdingnag — com execuções públicas e leis tão justas quanto a lei de talião —, cujas ruas estão cheias de pessoas em situação de miséria; muito menos os intelectuais de Lapúcia, sem preocupação com a aplicação prática de sua ciência. Por fim, nem mesmo os Houyhnhnm, que apesar de muito justos, pouco se importam com a reação de Gulliver ao ser expulso de seu país.

Referências Bibliográficas

COELHO, N. N. Panorama Histórico Da Literatura Infantil/Juvenil: Das Origens Indo-Européias ao Brasil Contemporâneo. São Paulo: Ática, 1991.

NEPOMUCENO, L. A. Sátira ou utopia: a 'perfeita' sociedade dos Houyhnhnms. ITINERÁRIOS – Revista de Literatura, São Paulo, n. 23, p. 193-204, 2005. Disponível em: <http://seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/2833/2574>. Acesso em: 5 jun. 2016.

SWIFT, J. Viagens de Gulliver [e-book]. A partir da edição de 1950. [s.l.]: eBooksBrasil, 2004.

SWIFT, J. & FOX, C. Gulliver's Travels: Complete, Authoritative Text with Biographical and Historical Contexts. New York: Palgrave Macmillan, 1995.

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¹ “From the highest to the lowest it is universally read, from the Cabinet-council to the Nursery. The Politicians to a man agree, that it is free from particular reflections, but that the Satire on general societies of men is too severe”. Carta de John Gay a Jonathan Swift, de novembro de 1726. In: SWIFT, J. & FOX, C. Gulliver's Travels: Complete, Authoritative Text with Biographical and Historical Contexts. Palgrave Macmillan: 1995. p. 21.

Paralelo social, industrial e tom crítico da obra


Para entender as sátiras presentes em As Viagens de Gulliver, é preciso atentar-se aos acontecimentos históricos que se consolidavam no século XVIII, incluindo as experiências pessoais do autor. Deste modo, a passagem de Gulliver por diferentes terras é brevemente documentada e contextualizada de acordo com as situações em que o livro foi escrito. Após a leitura, o leitor deve observar que muitos fatores sociais, políticos, econômicos e religiosos são amplamente abordados sob uma ótica lúdica, muito embora estejam revestidos de denúncia e escárnio.
Na primeira aventura marítima, o personagem principal naufraga em sua embarcação, e posteriormente se vê em um país habitado por humanos de minúscula estatura. Em Lilipute, as leis e os costumes são, em boa parte, controlados pelo imperador. O narrador pondera algumas qualidades e defeitos que lhe concerne, fazendo breves comparações com o modo de vida na Europa, lugar de onde veio. No que diz respeito às leis jurídicas, Gulliver mostra-se surpreso com algumas medidas, a exemplo da condenação à morte para o acusador, caso o acusado comprove judicialmente sua inocência. A fraude é tida como um crime maior – e punida com a morte – do que o roubo. Para eles, o cuidado e a vigilância podem prevenir a tentativa de roubo, mas a probidade não pode prevenir a má fé. Acompanhada da lista de leis curiosas dos liliputianos, a ingratidão é considerada um dos crimes mais graves. Por assim dizer, o choque de realidade é um artifício que o autor oferece ao leitor para refletir a moral, as crenças e os costumes estabelecidos na sua cultura.
Ainda em Lilipute, havia dois partidos de oposição: os Slamescksan, isto é, todos os cargos ligados à coroa (incluindo a administração do governo) e, do outro lado, os Tramecksan, representados pelos defensores da antiga constituição. Esses grupos rivais discordavam sobre assuntos muito pontuais: os Tramecksan defendiam constitucionalmente o uso de sapatos com salto alto, enquanto os Slamescksan defendiam o uso de sapatos com salto baixo. Outra oposição curiosa do reino liliputiano está presente no modo de quebrar a casca do ovo antes de consumi-lo:

 Toda gente concorda em que a maneira primitiva de partir os ovos antes de serem comidos, é bater com eles no rebordo de qualquer prato ou copo; mas o avô de Sua Majestade imperial, em criança, estando para comer um ovo, teve a infelicidade de cortar um dedo, o que deu motivo a que o imperador, seu pai, lavrasse um decreto, em que ordenava aos seus súditos, sob graves penas, que partissem os ovos pela extremidade mais delgada. (SWIFT, J. p.62)

No que tange à realidade do autor na história, essas dicotomias são aludidas aos partidos de oposição whigs e tories ingleses, estes por sua vez considerados conservadores, anglicanos, simpatizantes da classe dominante (reis e proprietários de terra), enquanto que aqueles, classificados como liberais, diziam-se tolerantes aos religiosos, republicanos e democratas. A crítica aqui centra-se na inconsistência de ambos os partidos. No decorrer dos seus anos, Swift apoiou as duas ideologias em momentos distintos de sua vida. Cansado da política e da estupidez humana, ele se dedica aos escritos com ironias e alegorias que denunciam a organização da sociedade, os modos de produção, interesses da classe dominante e desigualdade social.
Na sua segunda viagem, Gulliver novamente desembarca acidentalmente em terras desconhecidas, desta vez em Brobdingnag. Diferente de Lilipute, não havia um povo miúdo para abordá-lo. Sua imagem de gigante e imponente é invertida, dando lugar à insegurança e insignificância de estar em um espaço onde tudo e todos são colossais. Ao ser empossado por um lavrador, tomado como empregado e depois vendido à rainha, Gulliver é submetido a relações de poder e posse que, por assim dizer, é um decalque das privações da liberdade individual e dignidade humana, presentes para além das histórias fantásticas.
Levando em consideração a ideia de igualdade social, a organização de Brobdingnag estabelece uma relação de desproporcionalidade, semelhante à relação entre o tamanho de Gulliver e os habitantes desta terra de gigantes. Nos degraus hierárquicos do país, tem-se o rei e a rainha, a corte e os intelectuais, os fidalgos e donos de terras, lavradores, criados e escravos. Gulliver inicia sua trajetória em Brobdingnag na base da pirâmide social, comportando o título de escravo de um lavrador. Ao ser vendido para a rainha, o aventureiro ambiciona alcançar o mesmo estrato social que a realeza. São muitos os indivíduos que ultrapassam os meios legais para ascender no meio social. O nepotismo é inevitável em uma sociedade hierárquica e corrupta.
Em sua terceira viagem, Gulliver visita a terra da Lapúcia, dos Balnibarbos, Luggnagg, Glubbdudrib e Japão. Lapúcia é uma ilha flutuante, terra considerada dos músicos e matemáticos que vivem apenas dos resultados de suas considerações teóricas, desprezando assim a importância da prática.  Para entender o propósito desta passagem no livro, é importante verificar alguns fatos pertinentes ao recorte histórico que o autor faz menção. J. Swift acompanhou, em tempo real, os primeiros sinais das mudanças que  revolucionaram o cenário da Inglaterra e do mundo, sobretudo no que diz respeito aos meios e modos de produção em vigor.
Durante o século XVIII, as atividades exercidas pelo trabalhador camponês foram ofuscadas pelo trabalho da nova classe: o proletário. A consolidação do sistema capitalista trouxe consigo o crescimento das indústrias e o êxodo rural, marcando assim o início de grandes transformações econômico-sociais, o início da Revolução Industrial. Ademais, é sabido que a expansão do setor industrial impulsionou o desenvolvimento de novas tecnologias, máquinas (destaque à máquina de vapor) e afins, ocasionado então no surgimento do Racionalismo. Esta corrente defendia a explicação de todos os fenômenos científicos e sociais através da razão, deixando em último plano o Empirismo. Para aqueles, a realidade é ilusória e pessoal, passível a interferências do meio e erros humanos. Os dados trabalhados no plano das ideias seriam, para eles, puros e exatos. Swift então, com tom de crítica, atribui aos racionalistas (representados pelos músicos e matemáticos no livro) o atrofiamento da subjetividade do consciente e capacidade imagética, uma vez que estes negam para si e para o mundo outras possibilidades de conhecimento. A viagem de Gulliver segue por Balinibardi, onde encontra uma academia cuja comunidade científica só sabe produzir conhecimento teórico sem aplicá-lo. Depois passa por Glubbdudrib, uma ilha de feiticeiros que ressuscitavam figuras icônicas, como Aristóteles e Alexandre o Grande. Em Luggnagg, uma civilização imortal é descoberta por Gulliver.
            Em seu último destino fora de casa, o viajante repousa no país dos Huyhnhnms. Nesta terra, conhece cavalos que raciocinam e se comportam como humanos. Há também um outro grupo que divide espaço com os Huyhnhnms. Os Yahoos são seres dotados de características do homem primitivo e agem como irracionais. Gulliver, ao ir de encontro com esses povos, entra em choque. Mesmo depois de tantas aventuras surreais, aquilo se aproximava mais de uma fábula do que realidade. Afinal, em que lugar mais os cavalos seriam seres racionais e as criaturas aparentemente humanas seres irracionais?
            Gulliver, ao discursar com os Huyhnhnms, descreve a sua civilização como consumidores compulsivos para alimentar a vaidade, fala sobre as guerras, as doenças que acometem os humanos, o funcionamento do sistema político etc. Os Huyhnhnms, após escutá-lo com atenção, identifica todos os traços nos Yahoos, seres irracionais de sua terra. E, em contrapartida, os cavalos relatam as interações dentro do seu povo, descrevendo como harmoniosas, amorosas; todas as relações e interações são controláveis e, periodicamente, eles se reúnem para discutir problemas pertinentes à espécie.
            Swift encerra a história com uma provocação e levanta reflexão ao leitor sobre a condição do ser humano e todo o sistema que o circunda. A sociedade falhou. Seu personagem abandona todas as relações com a espécie humana. A misantropia, seguida da utopia que vivera com os Huyhnhnms, mostra ao leitor que a racionalidade que atribuímos à nossa espécie não é valorosa, tampouco racional se não for aplicada nas grandes instâncias da sociedade com virtude.


Bibliografia

SWIFT, Jonathan. As Viagens de Gulliver. Rio de Janeiro: Vecchi, 1970

SWIFT, Jonathan. As Viagens de Gulliver. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/eb000001.pdf>. Último acesso: 12/06/2016, às 20:30.

GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Sátira e crítica nas Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2011-dez-11/viagens-gulliver-swift-fez-critica-costumes-tempo>. Último acesso em: 14/06/2016, às 14:19.

LINARDI, Fred. A verdadeira história por trás do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/verdadeira-historia-livro-viagens-gulliver-jonathan-swift-683002.shtml>. Último acesso em: 14/06/2016, às 14:34.

GOMES, Cristiana. Revolução Industrial. Disponível em: <http://www.infoescola.com/historia/revolucao-industrial/>. Último acesso em: 15/06/2016, às 23:47.

FONSECA, Flávio Netto. Racionalismo   e   Empirismo. Disponível em: <http://www.philosophy.pro.br/racionalismo_empirismo_02htm.htm>. Último acesso: 16/06/2016, às 00:22.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Adaptações

De inegável importância para o legado da literatura infantil e juvenil, Viagens de Gulliver não poderia deixar de apresentar uma série de adaptações, tanto literárias quanto cinematográficas. Aqui serão comentadas principalmente a adaptação literária realizada pelo professor Paulo Sérgio de Vasconcellos e a cinematográfica de 2010, estrelada pelo ator Jack Black.
Dentre a série de adaptações cinematográficas da obra, encontra-se uma animação de 1939, além das lançadas em 1960, 1977 e 2010. Excetuando-se a de 1960 (denominada “As três viagens de Gulliver”), todas têm em comum a centralização da história na primeira viagem da obra original: a chegada e estadia de Gulliver em Lilipute, a terra dos pequenos homens. A adaptação de 1960 é considerada pela crítica a mais completa, visto que busca abranger não uma, mas três das quatro viagens narradas pelo Gulliver original de Swift. Obviamente, o ponto a ser discutido aqui não é a adaptação que mais se parece com o original, mas sim, como as adaptações retomam o original e como se relacionam entre si, além de recordar que, embora seja vista como uma obra pertencente ao universo infanto-juvenil, o original é banhado de longas descrições e críticas à sociedade que, em certa medida, tentam ser suavizadas nas adaptações. 
É interessante observar que as adaptações cinematogáficas de 1939, 1960 e 1977 buscam o máximo manter-se fiéis ao ambiente proposto pela obra original, como a ambientação histórica e caracterização das personagens. Entretanto, o filme lançado em 2010 destoa deste cenário: tem-se aqui uma atualização histórica, que traz Gulliver para o nosso cotidiano atual, apresentando uma série de elementos modernos para a narrativa-base de Swift.


Lemuel Gulliver (2010, interpretado por Jack Black) é um entregador de correspondência de escritório, que vê na escrita de uma viagem (inventada), a oportunidade de se aproximar do seu amor platônico, Darcy Silverman (Amanda Peet). Esta, resolve enviá-lo ao Triângulo das Bermudas (que já carrega certo misticismo, na concepção contemporânea, relacionado a misteriosos desaparecimentos) para que Gulliver faça um relato da viagem a ser publicado. Baseando-se, portanto, na mentira (elemento essencial para a construção do filme), Gulliver chega ao Triângulo das Bermudas e a partir de estranhos acontecimentos no mar, é levado ao que parece ser “uma realidade paralela”, chamada Lilipute. Aqui, tem início, propriamente, a relação com a obra de Swift, de modo que os primeiros minutos do filme gerem certo estranhamento no espectador, que espera encontrar uma adaptação direta (senão idêntica) do livro original. 
O filme segue, então, com uma série de acontecimentos que fazem menção direta ao romance original de Swift, inclusive o mais famoso deles - o incêndio apagado com urina. Além disso, traz uma série de elementos contemporâneos com o objetivo de engrandecer Gulliver (mais do que já é visto fisicamente pelos liliputianos), tais como filmes famosos - como Star Wars, Titanic, Avatar -  nos quais Gulliver seria personagem central até mesmo propagandas de grandes marcas. Lilipute é transformada em uma nova Manhattan, moldada aos desejos do protagonista, embasada em grandes mentiras contadas por Jack Black. A descoberta dessas mentiras acarreta no seu exílio para “A ilha que não ousamos ir”, fazendo referência a Brobdingnag original, visto que lá Gulliver é pequeno em relação aos demais habitantes. Desta forma, essa seria a punição de Gulliver pelas suas mentiras, apresentando uma lição de moral tipicamente hollywoodiana.
Desta forma, o filme tenta mesclar elementos originais da obra com a contemporaneidade, porém, acaba por se tornar mais uma produção que apresenta um enredo previsível e repleto de mesmices. É interessante observar três aspectos dessa produção: traz por fim uma mensagem de paz (remetendo à adaptação de 1939, período pré-guerra, que possui forte caráter pacifista); elegendo Gulliver gigante, coloca em cheque a grandeza física em oposição ao “mau” caráter (os liliputianos são aqui apresentados, em sua maioria, como de boa índole); traz a inferiorização (nesse caso, física) como punição pelos erros morais de Gulliver, de modo que pareça ser bem direcionado ao público infanto-juvenil, por possuir certa dose de humor e tom “educativo”. Embora continue sendo de qualidade questionável, deve-se levar em conta como mais um a ser acrescentado ao legado de Gulliver. 
No que concerne à adaptação literária, há uma infinidade de publicações que buscam adaptar Viagens de Gulliver aos mais variados públicos. Escolheu-se aqui a adaptação realizada por Paulo Sérgio Vasconcellos, para uma coleção do Curso Objetivo. Essa edição pretende, justamente, trazer ao público juvenil a obra sem se desfazer da carga crítica que a obra original possuía. Nas palavras de Vasconcellos (p. 9):

Esta versão reconta Viagens de Gulliver procurando não subestimar nenhum dos seus dois aspectos principais: a narrativa fabulosa, chegando por vezes a lembrar os contos de fadas, e a crítica ferina a instituições, costumes, história, comportamentos humanos (...) Sobretudo, almejou-se não subestimar a capacidade dos adolescentes e jovens a quem é dirigida. Tentou-se sempre simplificar sem diluir ou criar literatura demasiado infantil ou infantiloide.


Desta forma, a adaptação mantém, de fato, a fidelidade ao original: divide-se nas quatro partes propostas por Swift, divididas em capítulos com pequenas introduções do conflito central ali tratado. Muito da linguagem é recuperado, não há simplificação exagerada, porém, percebe-se uma seleção mais criteriosa principalmente naquilo que poderia causar certo transtorno (visto que é uma adaptação que tem como objetivo um público escolar). Um exemplo claro dessa seleção está na descrição do momento que Gulliver precisa defecar. O primeiro trecho foi retirado do original, publicado pela Penguin e Companhia das Letras, traduzido por Paulo Henriques Britto (edição de 2010), e o segundo trecho foi retirado da adaptação de Vasconcellos (2006).


Nas últimas horas, eu me sentia premido pelas Necessidades da Natureza; o que não admirava, pois já fazia quase dois dias desde a última vez que eu me aliviara. Estava eu dividido entre a Urgência e a Vergonha. A melhor solução que pude encontrar foi entrar de gatinhas na minha Casa, o que fiz em seguida; então, fechando o Portão após entrar, fui até onde me permitia a extensão da corrente, e lá livrei meu corpo daquela Carga incômoda (...) Eu não teria me alongado de tal modo sobre um Assunto que à primeira vista talvez não pareça muito importante, se não julgasse necessário justificar meu Caráter perante o mundo no que diz respeito à questão da Limpeza. (2010)


Depois de satisfazer às necessidades da natureza, saí de minha casa à procura de ar fresco. O imperador já tinha descido da torre e avançava a cavalo na minha direção. (2006)


Brevemente tentou-se trazer o universo das adaptações das Viagens de Gulliver para que ficasse clara a importância histórica e literária de tal obra, bem como a sua frequente atualização, de modo que cada vez mais tenhamos a certeza de que Swift foi extremamente talentoso e que sua obra tem seu lugar garantido para a posteridade.



Referências Bibliográficas


SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução de Paulo Henriques Britto. Penguin Classics e Companhia das Letras, São Paulo, 2010.


SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução e adaptação de Paulo Sérgio Vasconcellos. Editora SOL, São Paulo, 2006.


Filme completo Viagens de Gulliver (1939)


Trailer Viagens de Gulliver (2010)
https://www.youtube.com/watch?v=s1G-K0ArELk