De inegável importância para o legado da literatura infantil e juvenil, Viagens de Gulliver não poderia deixar de apresentar uma série de adaptações, tanto literárias quanto cinematográficas. Aqui serão comentadas principalmente a adaptação literária realizada pelo professor Paulo Sérgio de Vasconcellos e a cinematográfica de 2010, estrelada pelo ator Jack Black.
Dentre a série de adaptações cinematográficas da obra, encontra-se uma animação de 1939, além das lançadas em 1960, 1977 e 2010. Excetuando-se a de 1960 (denominada “As três viagens de Gulliver”), todas têm em comum a centralização da história na primeira viagem da obra original: a chegada e estadia de Gulliver em Lilipute, a terra dos pequenos homens. A adaptação de 1960 é considerada pela crítica a mais completa, visto que busca abranger não uma, mas três das quatro viagens narradas pelo Gulliver original de Swift. Obviamente, o ponto a ser discutido aqui não é a adaptação que mais se parece com o original, mas sim, como as adaptações retomam o original e como se relacionam entre si, além de recordar que, embora seja vista como uma obra pertencente ao universo infanto-juvenil, o original é banhado de longas descrições e críticas à sociedade que, em certa medida, tentam ser suavizadas nas adaptações.
É interessante observar que as adaptações cinematogáficas de 1939, 1960 e 1977 buscam o máximo manter-se fiéis ao ambiente proposto pela obra original, como a ambientação histórica e caracterização das personagens. Entretanto, o filme lançado em 2010 destoa deste cenário: tem-se aqui uma atualização histórica, que traz Gulliver para o nosso cotidiano atual, apresentando uma série de elementos modernos para a narrativa-base de Swift.
Lemuel Gulliver (2010, interpretado por Jack Black) é um entregador de correspondência de escritório, que vê na escrita de uma viagem (inventada), a oportunidade de se aproximar do seu amor platônico, Darcy Silverman (Amanda Peet). Esta, resolve enviá-lo ao Triângulo das Bermudas (que já carrega certo misticismo, na concepção contemporânea, relacionado a misteriosos desaparecimentos) para que Gulliver faça um relato da viagem a ser publicado. Baseando-se, portanto, na mentira (elemento essencial para a construção do filme), Gulliver chega ao Triângulo das Bermudas e a partir de estranhos acontecimentos no mar, é levado ao que parece ser “uma realidade paralela”, chamada Lilipute. Aqui, tem início, propriamente, a relação com a obra de Swift, de modo que os primeiros minutos do filme gerem certo estranhamento no espectador, que espera encontrar uma adaptação direta (senão idêntica) do livro original.
O filme segue, então, com uma série de acontecimentos que fazem menção direta ao romance original de Swift, inclusive o mais famoso deles - o incêndio apagado com urina. Além disso, traz uma série de elementos contemporâneos com o objetivo de engrandecer Gulliver (mais do que já é visto fisicamente pelos liliputianos), tais como filmes famosos - como Star Wars, Titanic, Avatar - nos quais Gulliver seria personagem central até mesmo propagandas de grandes marcas. Lilipute é transformada em uma nova Manhattan, moldada aos desejos do protagonista, embasada em grandes mentiras contadas por Jack Black. A descoberta dessas mentiras acarreta no seu exílio para “A ilha que não ousamos ir”, fazendo referência a Brobdingnag original, visto que lá Gulliver é pequeno em relação aos demais habitantes. Desta forma, essa seria a punição de Gulliver pelas suas mentiras, apresentando uma lição de moral tipicamente hollywoodiana.
Desta forma, o filme tenta mesclar elementos originais da obra com a contemporaneidade, porém, acaba por se tornar mais uma produção que apresenta um enredo previsível e repleto de mesmices. É interessante observar três aspectos dessa produção: traz por fim uma mensagem de paz (remetendo à adaptação de 1939, período pré-guerra, que possui forte caráter pacifista); elegendo Gulliver gigante, coloca em cheque a grandeza física em oposição ao “mau” caráter (os liliputianos são aqui apresentados, em sua maioria, como de boa índole); traz a inferiorização (nesse caso, física) como punição pelos erros morais de Gulliver, de modo que pareça ser bem direcionado ao público infanto-juvenil, por possuir certa dose de humor e tom “educativo”. Embora continue sendo de qualidade questionável, deve-se levar em conta como mais um a ser acrescentado ao legado de Gulliver.
No que concerne à adaptação literária, há uma infinidade de publicações que buscam adaptar Viagens de Gulliver aos mais variados públicos. Escolheu-se aqui a adaptação realizada por Paulo Sérgio Vasconcellos, para uma coleção do Curso Objetivo. Essa edição pretende, justamente, trazer ao público juvenil a obra sem se desfazer da carga crítica que a obra original possuía. Nas palavras de Vasconcellos (p. 9):
Esta versão reconta Viagens de Gulliver procurando não subestimar nenhum dos seus dois aspectos principais: a narrativa fabulosa, chegando por vezes a lembrar os contos de fadas, e a crítica ferina a instituições, costumes, história, comportamentos humanos (...) Sobretudo, almejou-se não subestimar a capacidade dos adolescentes e jovens a quem é dirigida. Tentou-se sempre simplificar sem diluir ou criar literatura demasiado infantil ou infantiloide.
Desta forma, a adaptação mantém, de fato, a fidelidade ao original: divide-se nas quatro partes propostas por Swift, divididas em capítulos com pequenas introduções do conflito central ali tratado. Muito da linguagem é recuperado, não há simplificação exagerada, porém, percebe-se uma seleção mais criteriosa principalmente naquilo que poderia causar certo transtorno (visto que é uma adaptação que tem como objetivo um público escolar). Um exemplo claro dessa seleção está na descrição do momento que Gulliver precisa defecar. O primeiro trecho foi retirado do original, publicado pela Penguin e Companhia das Letras, traduzido por Paulo Henriques Britto (edição de 2010), e o segundo trecho foi retirado da adaptação de Vasconcellos (2006).
Nas últimas horas, eu me sentia premido pelas Necessidades da Natureza; o que não admirava, pois já fazia quase dois dias desde a última vez que eu me aliviara. Estava eu dividido entre a Urgência e a Vergonha. A melhor solução que pude encontrar foi entrar de gatinhas na minha Casa, o que fiz em seguida; então, fechando o Portão após entrar, fui até onde me permitia a extensão da corrente, e lá livrei meu corpo daquela Carga incômoda (...) Eu não teria me alongado de tal modo sobre um Assunto que à primeira vista talvez não pareça muito importante, se não julgasse necessário justificar meu Caráter perante o mundo no que diz respeito à questão da Limpeza. (2010)
Depois de satisfazer às necessidades da natureza, saí de minha casa à procura de ar fresco. O imperador já tinha descido da torre e avançava a cavalo na minha direção. (2006)
Brevemente tentou-se trazer o universo das adaptações das Viagens de Gulliver para que ficasse clara a importância histórica e literária de tal obra, bem como a sua frequente atualização, de modo que cada vez mais tenhamos a certeza de que Swift foi extremamente talentoso e que sua obra tem seu lugar garantido para a posteridade.
Referências Bibliográficas
SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução de Paulo Henriques Britto. Penguin Classics e Companhia das Letras, São Paulo, 2010.
SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução e adaptação de Paulo Sérgio Vasconcellos. Editora SOL, São Paulo, 2006.
Filme completo Viagens de Gulliver (1939)
Trailer Viagens de Gulliver (2010)
https://www.youtube.com/watch?v=s1G-K0ArELk

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