quinta-feira, 16 de junho de 2016

Paralelo social, industrial e tom crítico da obra


Para entender as sátiras presentes em As Viagens de Gulliver, é preciso atentar-se aos acontecimentos históricos que se consolidavam no século XVIII, incluindo as experiências pessoais do autor. Deste modo, a passagem de Gulliver por diferentes terras é brevemente documentada e contextualizada de acordo com as situações em que o livro foi escrito. Após a leitura, o leitor deve observar que muitos fatores sociais, políticos, econômicos e religiosos são amplamente abordados sob uma ótica lúdica, muito embora estejam revestidos de denúncia e escárnio.
Na primeira aventura marítima, o personagem principal naufraga em sua embarcação, e posteriormente se vê em um país habitado por humanos de minúscula estatura. Em Lilipute, as leis e os costumes são, em boa parte, controlados pelo imperador. O narrador pondera algumas qualidades e defeitos que lhe concerne, fazendo breves comparações com o modo de vida na Europa, lugar de onde veio. No que diz respeito às leis jurídicas, Gulliver mostra-se surpreso com algumas medidas, a exemplo da condenação à morte para o acusador, caso o acusado comprove judicialmente sua inocência. A fraude é tida como um crime maior – e punida com a morte – do que o roubo. Para eles, o cuidado e a vigilância podem prevenir a tentativa de roubo, mas a probidade não pode prevenir a má fé. Acompanhada da lista de leis curiosas dos liliputianos, a ingratidão é considerada um dos crimes mais graves. Por assim dizer, o choque de realidade é um artifício que o autor oferece ao leitor para refletir a moral, as crenças e os costumes estabelecidos na sua cultura.
Ainda em Lilipute, havia dois partidos de oposição: os Slamescksan, isto é, todos os cargos ligados à coroa (incluindo a administração do governo) e, do outro lado, os Tramecksan, representados pelos defensores da antiga constituição. Esses grupos rivais discordavam sobre assuntos muito pontuais: os Tramecksan defendiam constitucionalmente o uso de sapatos com salto alto, enquanto os Slamescksan defendiam o uso de sapatos com salto baixo. Outra oposição curiosa do reino liliputiano está presente no modo de quebrar a casca do ovo antes de consumi-lo:

 Toda gente concorda em que a maneira primitiva de partir os ovos antes de serem comidos, é bater com eles no rebordo de qualquer prato ou copo; mas o avô de Sua Majestade imperial, em criança, estando para comer um ovo, teve a infelicidade de cortar um dedo, o que deu motivo a que o imperador, seu pai, lavrasse um decreto, em que ordenava aos seus súditos, sob graves penas, que partissem os ovos pela extremidade mais delgada. (SWIFT, J. p.62)

No que tange à realidade do autor na história, essas dicotomias são aludidas aos partidos de oposição whigs e tories ingleses, estes por sua vez considerados conservadores, anglicanos, simpatizantes da classe dominante (reis e proprietários de terra), enquanto que aqueles, classificados como liberais, diziam-se tolerantes aos religiosos, republicanos e democratas. A crítica aqui centra-se na inconsistência de ambos os partidos. No decorrer dos seus anos, Swift apoiou as duas ideologias em momentos distintos de sua vida. Cansado da política e da estupidez humana, ele se dedica aos escritos com ironias e alegorias que denunciam a organização da sociedade, os modos de produção, interesses da classe dominante e desigualdade social.
Na sua segunda viagem, Gulliver novamente desembarca acidentalmente em terras desconhecidas, desta vez em Brobdingnag. Diferente de Lilipute, não havia um povo miúdo para abordá-lo. Sua imagem de gigante e imponente é invertida, dando lugar à insegurança e insignificância de estar em um espaço onde tudo e todos são colossais. Ao ser empossado por um lavrador, tomado como empregado e depois vendido à rainha, Gulliver é submetido a relações de poder e posse que, por assim dizer, é um decalque das privações da liberdade individual e dignidade humana, presentes para além das histórias fantásticas.
Levando em consideração a ideia de igualdade social, a organização de Brobdingnag estabelece uma relação de desproporcionalidade, semelhante à relação entre o tamanho de Gulliver e os habitantes desta terra de gigantes. Nos degraus hierárquicos do país, tem-se o rei e a rainha, a corte e os intelectuais, os fidalgos e donos de terras, lavradores, criados e escravos. Gulliver inicia sua trajetória em Brobdingnag na base da pirâmide social, comportando o título de escravo de um lavrador. Ao ser vendido para a rainha, o aventureiro ambiciona alcançar o mesmo estrato social que a realeza. São muitos os indivíduos que ultrapassam os meios legais para ascender no meio social. O nepotismo é inevitável em uma sociedade hierárquica e corrupta.
Em sua terceira viagem, Gulliver visita a terra da Lapúcia, dos Balnibarbos, Luggnagg, Glubbdudrib e Japão. Lapúcia é uma ilha flutuante, terra considerada dos músicos e matemáticos que vivem apenas dos resultados de suas considerações teóricas, desprezando assim a importância da prática.  Para entender o propósito desta passagem no livro, é importante verificar alguns fatos pertinentes ao recorte histórico que o autor faz menção. J. Swift acompanhou, em tempo real, os primeiros sinais das mudanças que  revolucionaram o cenário da Inglaterra e do mundo, sobretudo no que diz respeito aos meios e modos de produção em vigor.
Durante o século XVIII, as atividades exercidas pelo trabalhador camponês foram ofuscadas pelo trabalho da nova classe: o proletário. A consolidação do sistema capitalista trouxe consigo o crescimento das indústrias e o êxodo rural, marcando assim o início de grandes transformações econômico-sociais, o início da Revolução Industrial. Ademais, é sabido que a expansão do setor industrial impulsionou o desenvolvimento de novas tecnologias, máquinas (destaque à máquina de vapor) e afins, ocasionado então no surgimento do Racionalismo. Esta corrente defendia a explicação de todos os fenômenos científicos e sociais através da razão, deixando em último plano o Empirismo. Para aqueles, a realidade é ilusória e pessoal, passível a interferências do meio e erros humanos. Os dados trabalhados no plano das ideias seriam, para eles, puros e exatos. Swift então, com tom de crítica, atribui aos racionalistas (representados pelos músicos e matemáticos no livro) o atrofiamento da subjetividade do consciente e capacidade imagética, uma vez que estes negam para si e para o mundo outras possibilidades de conhecimento. A viagem de Gulliver segue por Balinibardi, onde encontra uma academia cuja comunidade científica só sabe produzir conhecimento teórico sem aplicá-lo. Depois passa por Glubbdudrib, uma ilha de feiticeiros que ressuscitavam figuras icônicas, como Aristóteles e Alexandre o Grande. Em Luggnagg, uma civilização imortal é descoberta por Gulliver.
            Em seu último destino fora de casa, o viajante repousa no país dos Huyhnhnms. Nesta terra, conhece cavalos que raciocinam e se comportam como humanos. Há também um outro grupo que divide espaço com os Huyhnhnms. Os Yahoos são seres dotados de características do homem primitivo e agem como irracionais. Gulliver, ao ir de encontro com esses povos, entra em choque. Mesmo depois de tantas aventuras surreais, aquilo se aproximava mais de uma fábula do que realidade. Afinal, em que lugar mais os cavalos seriam seres racionais e as criaturas aparentemente humanas seres irracionais?
            Gulliver, ao discursar com os Huyhnhnms, descreve a sua civilização como consumidores compulsivos para alimentar a vaidade, fala sobre as guerras, as doenças que acometem os humanos, o funcionamento do sistema político etc. Os Huyhnhnms, após escutá-lo com atenção, identifica todos os traços nos Yahoos, seres irracionais de sua terra. E, em contrapartida, os cavalos relatam as interações dentro do seu povo, descrevendo como harmoniosas, amorosas; todas as relações e interações são controláveis e, periodicamente, eles se reúnem para discutir problemas pertinentes à espécie.
            Swift encerra a história com uma provocação e levanta reflexão ao leitor sobre a condição do ser humano e todo o sistema que o circunda. A sociedade falhou. Seu personagem abandona todas as relações com a espécie humana. A misantropia, seguida da utopia que vivera com os Huyhnhnms, mostra ao leitor que a racionalidade que atribuímos à nossa espécie não é valorosa, tampouco racional se não for aplicada nas grandes instâncias da sociedade com virtude.


Bibliografia

SWIFT, Jonathan. As Viagens de Gulliver. Rio de Janeiro: Vecchi, 1970

SWIFT, Jonathan. As Viagens de Gulliver. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/eb000001.pdf>. Último acesso: 12/06/2016, às 20:30.

GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Sátira e crítica nas Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2011-dez-11/viagens-gulliver-swift-fez-critica-costumes-tempo>. Último acesso em: 14/06/2016, às 14:19.

LINARDI, Fred. A verdadeira história por trás do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/verdadeira-historia-livro-viagens-gulliver-jonathan-swift-683002.shtml>. Último acesso em: 14/06/2016, às 14:34.

GOMES, Cristiana. Revolução Industrial. Disponível em: <http://www.infoescola.com/historia/revolucao-industrial/>. Último acesso em: 15/06/2016, às 23:47.

FONSECA, Flávio Netto. Racionalismo   e   Empirismo. Disponível em: <http://www.philosophy.pro.br/racionalismo_empirismo_02htm.htm>. Último acesso: 16/06/2016, às 00:22.

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