quinta-feira, 16 de junho de 2016

As Viagens de Gulliver

Concepção, controvérsia, censura, traduções e adaptações

  Publicado em 1726, sob o titulo original de Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships, Viagens de Gulliver, título em português, é uma das principais obras de Jonathan Swift. De natureza satírica, os relatos das viagens do cirurgião Lemuel Gulliver são críticas à natureza humana, às formas de pensamento e à organização social e religiosa vigentes na Europa do século XVIII. O romance satírico de Swift é muitas vezes posto em comparação com Robinson Crusoe, de Daniel Defoe: enquanto o último, publicado sete anos antes, transparece a visão positiva e otimista de Defoe acerca da capacidade humana, Viagens de Gulliver é cético quanto à essência humana, pessimista, e discute, entre outros temas, se o homem é inerentemente corrupto ou se é corrompido ao longo da vida.
  Não se sabe ao certo quando começou ou quanto tempo levou na composição de Viagens, mas sabe-se que Jonathan Swift fez parte de um grupo de outros escritores chamado Scriblerus Club, que tinha como objetivo a sátira de gêneros literários populares da época; a Jonathan Swift coube o relato de viagens. À epoca de sua publicação, a obra — que é composta de quatro livros, cada um relatando uma viagem a um destino ou série de destinos — rapidamente se populariza, em grande parte pelo tom fabulesco das aventuras do cirurgião. Tanto é o sucesso de Viagens, que John Gay, colega de Swift no Scriblerus Club, escreve, no próprio ano de 1726, uma carta que diz o seguinte: "Do nível mais alto ao mais baixo ele é universalmente lido, do conselho do gabinete ao berçário. É consenso entre os políticos que o livro está isento de reflexões particulares, mas que a sátira das sociedades humanas em geral é por demais severa."¹ (SWIFT & FOX, 1995, p. 21).
  A crítica mordaz em Viagens de Gulliver e o posicionamento claramente contrário ao partido Whig — o episódio na corte de Lilliput, primeiro dos destinos de Gulliver, reflete e satiriza a disputa entre os dois principais partidos britânicos, Whig e Tory — fazem com que o editor que recebe o manuscrito anônimo de Swift, Benjamin Motte, corte e altere diversos trechos do original: partes da viagem a Lilliput e da rebelião de Lindalino são simplesmente removidas. Motte também acrescenta parágrafos em defesa da Rainha Anne. A popularidade instantânea das aventuras de Gulliver faz surgir diversas continuações, paródias e guias da obra, publicados no encalço de Viagens. São, porém, fortemente repudiados por Swift, que tem, em 1735, a chance de se posicionar acerca da censura de Motte e dos escritos que tomam carona no sucesso de sua obra.
  George Faulkner — editor irlandês — publica, em 1735, uma edição revista da obra de Swift. Faulkner teve acesso a uma das edições anotadas por Motte com algum conteúdo removido ainda preservado; o manuscrito original enviado por Swift havia sido destruído. A partir dessa edição, foi incluído no romance uma carta, primeiro dos elementos pré-textuais de Viagens, chamada O Editor ao Leitor, que garante que um tal Richard Sympson, primo de Lemuel Gulliver e editor da publicação, recebeu do próprio primo o manuscrito de suas viagens. Sympson reforça o caráter verdadeiro dos relatos de Gulliver, característica dos romance realistas de relato de viagens. O segundo elemento pré-textual é uma carta do próprio Gulliver a seu primo Sympson, também adicionada ao romance a partir da edição de 1735, condenando a censura da edição de Sympson — na verdade, a edição de Motte:
Mas não me lembro de lhe ter concedido o poder de consentir que qualquer coisa pudesse ser omitida, e muito menos que qualquer coisa pudesse ser insertada; por isso, quanto às inserções, aqui renuncio qualquer coisa desse tipo; particularmente um parágrafo sobre sua majestade Rainha Anne, da mais pia e gloriosa memória; apesar de reverenciá-la e estimá-la mais que qualquer um da espécie humana. (SWIFT, 2012, p. 51)
  A edição de 1735 passa a ser a edição de consulta para novas traduções, uma vez que seu texto é o mais próximo que há do integral. A edição de Motte, segundo o próprio Swift, deixa o livro irreconhecível; através da fala de Gulliver, a reprovação fica evidente: “Da mesma forma no relato da academia dos projetistas, e em diversas passagens de minha conversa com meu mestre Houyhnhnm, você ou omitiu algumas circunstâncias materiais, ou misturou-as ou mudou-as de tal modo, que dificilmente reconheço minha própria obra.” (SWIFT, 2012, p. 56). Junto aos primeiros cortes de conteúdo desde a primeira publicação, traduções e adaptações em todo o mundo acabam por “amenizar” o estilo ácido e por vezes agressivo das críticas de Swift.
  É claro, portanto, que Viagens nunca foi pensado por Swift como um livro para crianças. Mas há algo que, geração após geração, mantém Viagens de Gulliver como um clássico, sempre atual; relevante tanto para crianças (em suas diversas adaptações) como para adultos (com tudo o que a versão original tem a revelar). Nelly Novaes Coelho, em seu Panorama Histórico Da Literatura Infantil/Juvenil, reflete a respeito das traduções e adaptações de Viagens: “essa “indignação raivosa” que está latente (ou patente) na matéria alegórica que constitui Viagens de Gulliver acabou desaparecendo nas traduções e adaptações que começaram a correr mundo, transformadas em literatura para meninos e jovens.” (COELHO, 1991, p. 122). E, ainda:
Devido à inegável crueldade que transparece da linguagem satírica escolhida por Swift (e que, mais do que atacar a Inglaterra da época, denunciava as misérias morais da Humanidade), caberia perguntar como tal obra se transformou em Literatura Infanto-Juvenil e tem sido festejada por esse público jovem em todo o mundo. (COELHO, 1991, p. 123)
  O grande número de adaptações de Viagens e a popularidade junto ao público infantil, desde seus primeiros anos, se justificam no caso de se observar do que é composta a obra alegórica de Swift: se omitida a intenção crítica dominante e a crueza de sua linguagem, restam relatos de viagens fantásticas que não só dialogam com o universo de uma pequena criança “perdida” em um mundo de grandes adultos — similarmente a um Gulliver perdido entre os gigantes de Brobdingnag — como resgatam outros textos da tradição literária popular (são exemplos O Pequeno Polegar, de Perrault; ou a Ilíada, de Homero, com seus cavalos falantes — conforme aponta Nelly Novaes Coelho.), muito presentes no imaginário infantil.

Gulliver e as viagens

  Gulliver, apesar de não ter tido acesso a educação superior, lê muito e é habilidoso com línguas estrangeiras, o que garante que aprenda rapidamente todas as línguas dos lugares que visita, mesmo a dos Houyhnhnm:
Empreguei os meus ócios em ler os melhores autores antigos e modernos, levando sempre comigo certo número de livros, e, quando vinha à terra, não descurava de notar os usos e costumes dos povos, aprendendo, simultaneamente, a língua do país, o que se me tornava fácil, visto possuir boa memória. (SWIFT, 2012, p. 113)
  No quesito personagem, Viagens de Gulliver é um romance bastante moderno: a personagem é, no íntimo, completamente transformada. No princípio do romance, Gulliver — cujo nome vem de gullible, inglês para crédulo, ingênuo — é um homem otimista, movido pelo desejo comum do homem burguês de enriquecer e oferecer uma vida melhor à mulher e aos filhos. Até o desfecho da última viagem, vemos Gulliver se transformar em um misântropo recluso que enxerga todos os seres humanos como os humanoides irracionais yahoos do país dos Houyhnhnm. A natureza inicial de Gulliver é de acreditar no que vê e no que dizem a ele; para Luis André Nepomuceno, a inocência de Gulliver permite que ele denuncie involuntariamente os absurdos das viagens; Para ele, Gulliver:
Em geral, é incapaz de observações agudas e se envolve confusamente com os fatos, deixando claro que não é possuidor de qualquer espírito crítico ou aptidão para o discernimento, o que evidentemente torna o humor ainda mais refinado e o leitor ainda mais ágil. Em termos práticos, isso funciona mais ou menos assim: Gulliver narra os abusos, as atrocidades e calamidades de cada um dos reinos que visita, mas ao mesmo tempo, toma-os por fatos inteiramente normais, como se o absurdo fosse subitamente banal e compreensível. Não há momento no livro em que o narrador Gulliver pondera, junto do leitor, sobre os escândalos daquilo que vê. (NEPOMUCENO, 2005, p. 194)
  Ao longo da narrativa, depois de estar em tantos lugares e conhecer de perto a essência corrompida dos humanos, a descrença de Gulliver cresce a tal ponto que ele deseja não precisar voltar à Inglaterra. A relação entre os países que visita e o próprio Gulliver é sempre de oposição: Em (1) Lilliput, Gulliver é um gigante; a forma de governo é complexa e, na opinião dele, o governo liliputeano é pior que o governo inglês (embora esta viagem aponte para questões reais da própria Inglaterra): os liliputeanos são vistos por Gulliver como corruptos e inescrupulosos. Em (2) Brobdingnag, Gulliver é minúsculo. O governo e a constituição são simples (embora patriarcais e completamente alheios aos direitos humanos) e o rei de Brobdingnag os considera muito superiores aos modelos europeus.
  Na (3) ilha da Lapúcia, Gulliver se sente mais sábio que os homens que investem tempo e recursos em pesquisas e experimentos “científicos” que não colaboram para o progresso da sociedade ou de seu governo; este governo é, para Gulliver, pior que o inglês. A “piada” que os homens de Lapúcia representam para Gulliver é, para Nelly Novaes, reflexo dos valores vigentes da época: “Ainda no sentido da verdadeira cultura, Swift satiriza a esterilidade ou gratuidade de certo “saber” que não levava a nada de útil para o homem. E nisto está também o pragmatismo do pensamento burguês que se instalava no mundo.” (COELHO, 1991, p. 123).
  No (4) país dos cavalos falantes Houyhnhnm, Gulliver acaba visto apenas como um yahoo capaz de raciocínio e, apesar de desejar viver definitivamente neste país, jamais se equipara aos Houyhnhnm, muito mais sábios que a raça dos homens. Este governo é infinitamente superior ao inglês. Apesar da evidente superioridade dos equinos em relação aos humanos, esta viagem também é satírica; segundo Nepomuceno:
Diferentemente dos outros 3 livros, este parece estar ligado às antigas utopias renascentistas, de que Swift particularmente não gostava. O relato, no entanto, revela-se tão satírico quanto os outros, assim que se compreende que a utopia dos Houyhnhnms esconde uma sátira da sociedade prática e racionalista, sustentada pela ausência de vícios e paixões, mas ao mesmo tempo, pela ausência de tolerância, amor e afetividade. (NEPOMUCENO, 2005, p. 193)
  Não há, portanto, forma de governo ideal em Viagens de Gulliver: nem os corruptos liliputeanos, sempre em guerra com os vizinhos de Blefuscu, nem os simplistas de Brobdingnag — com execuções públicas e leis tão justas quanto a lei de talião —, cujas ruas estão cheias de pessoas em situação de miséria; muito menos os intelectuais de Lapúcia, sem preocupação com a aplicação prática de sua ciência. Por fim, nem mesmo os Houyhnhnm, que apesar de muito justos, pouco se importam com a reação de Gulliver ao ser expulso de seu país.

Referências Bibliográficas

COELHO, N. N. Panorama Histórico Da Literatura Infantil/Juvenil: Das Origens Indo-Européias ao Brasil Contemporâneo. São Paulo: Ática, 1991.

NEPOMUCENO, L. A. Sátira ou utopia: a 'perfeita' sociedade dos Houyhnhnms. ITINERÁRIOS – Revista de Literatura, São Paulo, n. 23, p. 193-204, 2005. Disponível em: <http://seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/2833/2574>. Acesso em: 5 jun. 2016.

SWIFT, J. Viagens de Gulliver [e-book]. A partir da edição de 1950. [s.l.]: eBooksBrasil, 2004.

SWIFT, J. & FOX, C. Gulliver's Travels: Complete, Authoritative Text with Biographical and Historical Contexts. New York: Palgrave Macmillan, 1995.

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¹ “From the highest to the lowest it is universally read, from the Cabinet-council to the Nursery. The Politicians to a man agree, that it is free from particular reflections, but that the Satire on general societies of men is too severe”. Carta de John Gay a Jonathan Swift, de novembro de 1726. In: SWIFT, J. & FOX, C. Gulliver's Travels: Complete, Authoritative Text with Biographical and Historical Contexts. Palgrave Macmillan: 1995. p. 21.

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