quinta-feira, 16 de junho de 2016

Swift: o flagrante individual de um momento social

À compreensão da escrita de Swift é imprescindível o conhecimento da conjuntura social e política na qual foi desenvolvida. Para tanto, faz-se necessário um panorama histórico.
No reinado de Henrique VIII (1509-1547), em meio à luta entre a soberania dos reis e o poderio da Igreja, criou-se na Inglaterra uma Igreja Nacional. A Igreja Anglicana, como veio a ser chamada, se caracterizou por ser estreitamente vinculada ao Estado, por estar fora da jurisdição papal e por sua subordinação à autoridade do Rei. Consolidou-se através de suas práticas e de sua liturgia durante o reinado de Isabel (1550-1603), tornando-se um grande instrumento político. Ainda assim, havia, naquela época, grande diversidade religiosa na Grã-Bretanha: na Inglaterra, encontravam-se calvinistas puritanos, católicos e anglicanos; na Escócia uma maioria de calvinistas presbiterianos; e na Irlanda, majoritariamente, católicos. Entretanto, devido ao interesse de se manter o equilíbrio da vida inglesa, houve uma tolerância do Estado durante o reinado de Isabel.
Após a morte da rainha inicia-se o reinado dos Stuarts com Jaime I (1603-1625) e Carlos I (1625-1649). Mesmo sendo Anglicano e não dando espaço aos católicos nos órgãos de representação, o reinado de Jaime I não se caracterizou por conflitos religiosos, e sim por uma indisposição com o Parlamento devido à criação de impostos para suprir os gastos que a Coroa tinha com guerras.
No reinado de Carlos I a indisposição que havia com o Parlamento evoluiu para um conflito: após quatro anos de sua posse (1629), valendo-se de sua autoridade política e religiosa, Carlos I instaurou uma monarquia absolutista. Com a economia do reino cada vez mais comprometida, ele tentou criar um novo imposto que foi vetado pelo Parlamento, e em 1642 estourou a guerra civil inglesa. Em 1645 a guerra termina com o triunfo do Parlamento que era liderado por Oliver Cromwell.
Em 1649 Carlos I é decapitado e proclama-se a República. Entretanto, sob o título de Lorde Protetor da Inglaterra, Oliver Cromwell tornou-se governante. Seu governo foi marcado pela imposição do puritanismo à Grã-Bretanha: fechou teatros, casas de jogos, bares, tavernas, bordéis e foi além- toda tolerância religiosa acabou. Cromwell realizou uma violenta perseguição aos católicos, sobretudo na Irlanda.
Em 1660 Cromwell morre, Carlos II volta da França e assume o trono. Depois de toda repressão puritana, houve, durante o reinado de Carlos II, um grande relaxamento moral e até certa libertinagem, e foi justamente nessa época que nasceram os dois grandes partidos políticos ingleses:
os Whigs, defensores do ideal puritano e da autoridade do Parlamento em face do rei; e os Tories, conservadores e fiéis aliados não só das prerrogativas monárquicas, como também do sistema episcopal da Igreja Anglicana (ANDRADE, A. de. Prefácio. In: Swift, J. Viagens de Gulliver (C. Teixeira, Trad.). Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. (339p.). )
Foi nesse ambiente de lutas religiosas e políticas que nasceu em Dublin (Irlanda) Jonathan Swift, um dos maiores nomes da literatura anglo-irlandesa, em 30 de novembro de 1667 - apenas sete anos após o término da guerra puritana na Inglaterra. Swift foi educado no Trinity College, onde recebeu uma educação extremamente conservadora, clássica e anglicana e após a conclusão de seus estudos, foi para Inglaterra ser secretário do Sr. William Temple, um escritor e diplomata aposentado.
Na política, com a morte de Carlos II, quem assumiu o trono foi seu tio James II, rei que tinha apoio dos Tories, mas que o perdeu quando tentou reinstituir a Igreja Católica e o Absolutismo. Com isso, em 1688 ocorre a Revolução Gloriosa, onde James é tirado do poder e Guilherme de Orange (marido da irmã de James II e rei da Holanda) assume. É nessa época, em que a nova ordem leva os Whigs ao poder, que Swift vai para Inglaterra com Temple.
Houve uma reação conservadora durante o reinado seguinte, da rainha Ana (1702-1714), onde os Tories assumiram o poder e Swift deu inicio a sua atuação política escrevendo sátiras em defesa dos conservadores.
 Em 1713, Swift recebeu a posição de Deão da Catedral de São Patrício, em Dublin, como recompensa por seus serviços políticos. Com a morte da rainha e o afastamento dos Tories do poder, Swift deixa Londres definitivamente e volta à Irlanda, onde dedicou-se à vida religiosa e à literatura.
Foi através da voz de suas sátiras e de seu tom crítico que, na Irlanda, acabou por tornar-se um herói nacional ao lutar para diminuir a opressão dos católicos pelo governo protestante.
Swift viveu numa época de antagonismos, transições e instabilidade; sua literatura traduz não só essas lutas, mas também sua violência e a desordem psicológica por ela causada. Suas sátiras estão repletas de críticas causadas pelo seu choque com a crueldade e o egoísmo humano.
Em 1720, carregado por todo esse ambiente, Swift começa a escrever o livro que viria a ser considerado o seu masterpiece: As Viagens de Gulliver, publicado em 1726.
Jonathan Swift faleceu em Dublin, no dia 19 de outubro de 1745. Foi sepultado na Catedral de São Patrício sob um epitáfio que ele mesmo escolheu: “Quando a selvagem indignação não mais pode lacerar o coração, parte, viajante, e imita, se puderes, o resoluto defensor da liberdade viril”.

Bibliografia

Jonathan Swift: His Life and His World - Leo Damrosch: May 14, 2014. Disponível  em: <https://www.youtube.com/watch?v=vfQ992lh7Cg>. Acesso em: 16 jun. 2016.
Swift, J. (1965) Viagens de Gulliver (C. Teixeira, Trad.). Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. (339p.).
The Research and Planning Department of the CCAA. A Brief View of British Literature. CCLS Publishing House. Brasil. 

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